Janelas




Ela tinha flores em suas mãos, um rosa em pedaços. Tinha uma rosa despetalada. Uma única pétala. Uma canção, e mais nada.
Ecoando notas, refletindo olhos, perdendo memórias, procurando portas e janelas, revirando tempestades, fungindo de si, refletindo olhos.
Refletem os olhos, os lábios não se mexem, nem uma palavra se quer. Só olhos que refletem água. Olhos que refletem um mar, todo o oceano, e os lábios imóveis.
Eis que se abrem as cortinas, surge uma janela. Vento, ventania, revirando tempestade, e a música ecoando, se espalhando, cada vez mais forte, fazendo-a viajar. E no compasso da melodia, o compasso de um coração. E os olhos refletindo um oceano inteiro.
Cabelos esvoaçantes, braços abertos, está ela de frente pra janela. Um mosaico em forma de flor, violinos, vitrilhos coloridos refletindo nos olhos, no mar dos olhos. O que ela diz? Nada. Lábios calados. Violinos refletindo no mar de seus olhos e a melodia ecoando, vinda de onde? Ela nunca soube. Nunca entendeu o que tinha vivido até então.
Ali, sentada na janela, no alto da torre, ela sentiu que podia voar. Ali, de braços abertos, cabelos ao vento, já sem as flores, sem pétalas, sem correntes, sem nada que a impedisse de pular. Pulou. Voou, fugiu de tudo e de nada, deixou o mar dos olhos bem lá onde deixou a torre, a janela. Nos olhos já não trazia seu oceano inteiro, já não trazia nada além de um sol. Um sol, que brilhava sem razão de ser, só sendo, mirando tudo que havia perdido. Havia perdido tempo. E quando por fim pousou, acordou. Abriu os olhos e se viu parada em frente a janela, de braços abertos, pétalas nas mãos, cabelo ao vento. Já não tinha oceanos em seu olhar. Sentiu que podia voar, sorria. O sorriso mais lindo que se possa imaginar, mas os lábios estavam imóveis. Aprendeu a sorrir com o olhar. Abriu as janelas da alma.

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