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Mostrando postagens de 2016

Souvenir

Neste momento percebo que guardo lembranças como se fossem suvenirs de viagens passadas. Guardo numa caixa tentando não perder. Às vezes quero jogar alguma coisa fora, mas a caixa não tem fundo e as lembranças se misturam lá dentro. É difícil encontrar ou alcançar algumas coisas, outras são difíceis de esquecer.

Eu tenho medo de perder o suvenir da voz da vó Iolanda, ou da cor dos olhos da vó Olívia, ou da sensação da mão gelada do vô Hercílio no meu rosto, me reconhecendo pelos meus traços e voz. Eu tenho medo dessas coisas importantes se perderem no buraco negro da minha caixa sem fundo, mas por algum motivo ainda guardo suvenirs inúteis como do número do primeiro celular do meu pai, que ele comprou quando eu ainda era criança e que de tão grande e pesado precisava de uma bolsinha só pra ele.

Eu queria só guardar o souvenir da gargalhada da minha madrinha e da voz dela nos telefonemas de aniversário, que ela nunca esqueceu, mas guardo também a imagem de um monte de flores onde ningu…

Ciclos de tinta

Às vezes me sinto desenhando círculos. Me sinto uma caneta que desenha sempre a mesma coisa, sem ter como apagar. Já achei que devia usar a tinta escrevendo, depois descobri que prefiro desenhar. Escrevi, escrevi, risquei tudo e joguei fora. Também já desejei que a tinta acabasse, já desejei não mais riscar. Hoje desejo aprender a riscar coisas novas: quadrados, linhas, letras, fazer desenhos bonitos… mas continuo desenhando círculos.

Texto desenvolvido na Oficina Literária Boca de Leão.