Sobre amor e força


Me pediram pra escrever um texto sobre a vó Olívia. Fiquei um bom tempo pensando no que escrever.



Eu poderia dizer que dona Olívia Mayer Laurindo nasceu no dia 12 de junho de 1935, em Armazém. Casou com José Osório Laurindo no dia 31 de julho de 1953, ficando casada com ele por 48 anos até ele falecer em 2002. Eles tiveram 10 filhos, 15 netos, 5 bisnetos. Uma família muito bonita, diga-se de passagem....
Bom, seria muito mais fácil e menos dolorido escrever um texto assim, bem objetivo. Sem muito sentimento e com um distanciamento confortável pra não doer nas lembranças. Mas faltava alguma coisa. E foi aí que eu vi que seria inevitável. Se eu quisesse realmente falar do que a dona Olívia significa pra gente, ia doer. Porque lembrar dói mesmo. Escrever às vezes dói. É bom, mas quando a gente fala de alguém que foi embora, machuca. E eu sabia que não ia doer só em mim, mas em todo mundo que ouvisse.
Saí pesquisando histórias e coisas que cada um lembrava dela. Alguns lembravam das broncas, outros de histórias que nos arrancavam risadas, mas no fim, a palavra que me veio na cabeça foi força.
Porque tem que ser forte pra criar 10 filhos, mostrar pra eles o caminho certo. Tem que ter força pra ver a pessoa que tá do seu lado adoecer.
Imagino como deve ter sido difícil pra ela ver o vô Juca indo e vindo de hospitais. E força maior que você tem que ter pra ver a pessoa com quem você dividiu tantos anos da sua vida ir embora, te deixar. É um vazio que não é preenchido tão fácil. São muitas lembranças, uma vida inteira construída juntos.  
Hoje, pensando no passado mais recente, imagino que as lembranças eram a única coisa que ela tinha. Um punhado de sentimentos desorganizados na cabeça, e as lembranças que se embaralhavam de um jeito que ela não conseguia expressar. E agora era nossa vez de ser fortes.
Olha, dona Olívia, não é fácil pensar nas coisas que você não vai ver. Os netos que não vai ver casar, os outros bisnetos que não vai conhecer... Mas acho que mais difícil era te ver chorando de saudade dos filhos que você não lembrava que tinham crescido. Que tuas crianças te deram uma família linda. E agora é a gente que chora de saudade.
Só queria lembrar dessa força que a gente conhece ainda no colo. Essa força que faz a gente enfrentar qualquer coisa e que se chama amor. Porque no final nas contas, lembranças vão se perdendo no ar, rostos e nomes são esquecidos com o tempo, mas só essa força continua igual. Só o amor permanece.

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