A varanda

Ele estava sentado na varanda, olhando para a praça, como fazia todos os fins de tarde, há vários anos. Às vezes, alguém senta ao seu lado e ali conversam durante muito tempo, mas na maioria das tardes, ele fica ali sozinho, com um olhar distante, talvez pensando nos dias em que ele ficava naquele mesmo lugar, de mãos dadas com aquela com quem dividiu toda uma vida.

Há alguns anos a cadeira dela está vazia. E durante esses anos, ele sente a sua falta. A metade vazia da cama e do armário, uma xícara a menos na mesa do café, uma aliança a mais na mão esquerda, e o passinho lento que não se ouve mais pelo assoalho. Os retratos espalhados pelas paredes, o sorriso que não é mais o mesmo. Sobra tempo e espaço, falta um pedaço.

Difícil saber no que ele pensa, mas é olhando pra ele, ali, sozinho no canto na varanda, é que a gente percebe como é bom, ao mesmo tempo que é também difícil, ter alguém de quem você sinta falta.

É bom ter aquela pessoa do seu lado sempre, saber que você a ama e que a recíproca é verdadeira, mas dói saber que um dia essa pessoa pode sair da sua vida, pode resolver ir embora, ou simplesmente ter de ir, sem oportunidade de escolha.

Dói pensar que esse alguém pode um dia virar pra você e dizer "hey! tô indo embora da sua vida", como dói ter que dar um adeus sem poder se despedir. Dói, porque quando você tem alguém tão importante pra você, como ela era pra ele, você não consegue mais imaginar as coisas sem essa pessoa por perto. Você não consegue mais imaginar sua vida sem as bobagens, as chantagens, os dramas, os sorrisos, os abraços.

Porque esse é o tipo pessoa que entra na sua vida e, em pouco tempo, te faz sorrir como bobo, faz você se sentir doente e seu coração parar por alguns milésimos de segundos, só de pensar na possibilidade de vê-la longe de você. Essa, é aquela pessoa que preenche todos os espaços vazios que existiam em você, e que você nem sabia. Espaços que você não sabe como vai fazer para preencher se ela deixá-los vazios outra vez. E o dia que ela for embora pra não mais voltar, você respeita a sua escolha, entende a sua partida. Pode não reagir, não questionar... mas aceitar? É muito, muito difícil. É difícil pensar que vai haver outra pessoa ocupando o lugar que era seu. Mais difícil ainda, é pensar que aquilo é um ponto final. Que não há ninguém. Só você e suas lembranças. Uma varanda e uma cadeira vazia.

Às vezes, o que você mais quer, é que a pessoa saiba o quanto ela é importante pra você. Você quer que ela saiba que você se importa com ela, mesmo sabendo que ela já sabe disso. Quer que ela saiba da quantidade de vezes que você já tentou dizer todas essas coisas a ela, mas na hora sentiu o conhecido nó na garganta e as borboletas no estômago. Porque na verdade, você tem medo. Medo de assustar, medo de estar fantasiando, medo de ter que se afastar, de ter de ir embora. Você só quer que ela saiba de tudo isso antes dela sair da sua vida.

Todas essas coisas passam pela minha cabeça em apenas alguns segundos, sempre que paro na frente daquela mesma casa de madeiras amarelas e janelas marrons. Me vejo de novo correndo pela casa, pulando nas camas, ou sentada no chão da sala. Ouço outra vez aqueles passinhos lentos no assoalho, fico pensando se ele pensa o mesmo que eu.

Eu também sinto a falta dela. Talvez por isso é que meu coração fica apertado sempre que chego na varanda e ocupo o lugar que era dela, para conversar durante muito tempo. Deve ser por isso também, que toda vez que eu o vejo ali sentado sozinho, com o olhar perdido, sinto vontade de chorar.

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