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Vidro Quebrado e Flores no Jardim



Era como se meu corpo fosse feito de cacos de vidro afiados. Não importava o que eu fizesse, eu sempre cortaria alguém que amava. Eu era como um bibelô de cristal caído de uma prateleira ou estante qualquer, que agora não passava de um amontoado de cacos de vidro que ninguém quer por perto. Ninguém quer se machucar.

Eu me sentia sozinha, no escuro. Era como se eu estivesse em um universo paralelo. Pensei em ficar por lá e deixar que as outras pessoas seguissem suas vidas, tentando cicatrizar os cortes e feridas que eu havia lhes deixado como lembrança. Pensei em não voltar. Me odiava por ser do jeito que era, me sentia mal pelo fato de machucar todos à minha volta.

O fato é que ninguém vive de aparências. Descobri que meus cacos de vidro, tão afiados, não passavam de uma farsa que eu havia criado para me proteger de algo que nem eu mesma podia saber exatamente o que era. A máscara caiu. Me enganei, sim, durante muito tempo, mas apesar do vidro ser falso, as cicatrizes eram reais. As marcas que deixei em quem amava, essas não eram uma mentira.

Passei muito tempo olhando para um espelho quebrado: via partes de mim espalhadas por todos os lados sem saber como juntar. Tanto tempo que tomei essa imagem distorcida como verdade, e só me dei conta das bobagens em que acreditava quando me vi refletida na água: sem partes espalhadas, sem cacos pontiagudos onde eu pudesse ferir alguém, sem nada além de minha alma inteira, como deveria ser.

Me vi refletida na água de meus próprios olhos. Tentei fechá-los novamente, mas não pude. Eu já tinha os olhos abertos para enxergar o que não queria ver, o que eu tentava esconder de mim com os olhos cerrados e cacos afiados. Para me "proteger".

Tudo isso é tão estranho! Sinto como se tivesse vivido sem uma parte de mim enquanto me escondia. Faltava algo, e eu não percebia. É como um fim não declarado, uma poesia mal acabada, uma frase com muitas vírgulas mas nenhum ponto final. É um livro pela metade, alguém que não sente saudade, uma carta que nunca chegou ao seu destino.

Precisei sentir uma tempestade para aprender a gostar da chuva. Precisei ficar na janela vendo essa tempestade se aproximar para entender que nem sempre a janela pode ser fechada, eu nem sempre posso fugir do que temo. Só aí é que aprendi que a vida vai muito além da visão que eu tenho dela. Só nesse momento é que descobri que a visão de mundo que eu tinha era menor que um grão de arroz; que eu atacava para tentar fugir quando alguém ameaçava destruir meu faz-de-conta.

Só depois de todo esse tempo é que consegui transformar pedaços de vidro em diamantes, e o mar que rebentava ondas em meus olhos, em estrelas que os fizeram brilhar como nunca souberam antes. Passei a semear flores "solitárias" em jardins alheios, para que o meu não fosse o único a se encher de cores e perfumes na primavera.

Hoje meu mundo se expandiu. Porque a mudança pode ser lenta, mas não para nunca. Meus olhos se abriram, minha janela está escancarada, e os cortes que deixei, tento transformar nas flores que hoje compõe o meu jardim.



21 de Setembro de 2008